Quando gravar um CD?

Em outro artigo, intitulado Por que gravar um CD?, escrevi que muitas pessoas e ministérios sonham em gravar um CD porque, às vezes, só enxergam um pretenso “glamour” em ser artista. Falei ainda que, na minha opinião, só deveria gravar um disco quem estivesse disposto a assumir uma missão árdua que implica na doação de toda a vida não em proveito próprio, mas em função do serviço ao povo de Deus.

Penso que há muita boa intenção e um desejo real de evangelizar em todos os ministérios que estão gravando ou pensando em gravar suas canções. Mas penso também que, em muitos casos, existe uma certa precipitação. O que poderia ser uma grande obra de Deus acaba sendo estragada ou não dando os frutos que deveria, porque não foi feita no tempo certo.

Então, como saber quando gravar um CD?

Primeiro, é preciso ter certeza de que aquela é a vontade de Deus para o ministério. Depois, é preciso pedir ao Senhor o dom do discernimento para perceber o momento certo. Nesse processo, são necessárias muitas orações e muita sinceridade para perceber realmente o que Deus quer falar e não aquilo que desejamos ouvir. Além disso, alguns sinais vão ajudar a perceber o tempo certo.

Um desses sinais são as composições. O fato do ministério ter músicas próprias pode ser um sinal de que Deus queira um CD, mas não é fator primordial. Penso que não se deve gravar só porque há composições. É preciso amadurecer as letras, as melodias. É preciso que essas músicas sejam cantadas no meio do povo, para perceber os frutos que elas dão, ouvir testemunhos, ver o que Deus está realizando através dessas canções. Até para que depois se possa escolher bem o repertório.

É preciso também ouvir críticas, analisar bem o que dizem as letras. Há casos em que o ministério tem algumas composições e já quer gravar por causa disso. A não ser que Deus confirme muito claramente que é esse o desejo dele para aquele momento, creio que é preciso ter muitas composições, observar muito, rezar muito com essas músicas, ministrá-las com o povo. E isso não é trabalho de alguns meses, mas de anos.
Um outro fator que considero importante é que o cantor ou ministério que chega ao momento de gravar um CD deve ter alguns anos de estrada, ministrando na Liturgia, em encontros e em grupos de oração. É a experiência diária de ministrar, de conduzir a música de Deus no meio do povo e de ver o Senhor agindo na vida das pessoas através da sua fragilidade, que constrói o ministério. Ver Deus agindo justamente naqueles dias em que o músico se sente a pior das criaturas é o que faz entender a escolha do Senhor. É essa vivência que vai exercitando-nos na prática de ser o ouvido do povo diante de Deus e de ser a boca de Deus para o povo.

Preocupa-me perceber que, hoje em dia, muitos ministérios e cantores mal “nascem” e já pensam em gravar CD, sem antes serem bastante calejados na vivência paroquial, na dinâmica da reconciliação, no serviço à Liturgia e nos grupos de oração. É como querer colher frutos maduros de uma árvore recém plantada.

Outro ponto que julgo importante para esse discernimento é o testemunho. Tanto o das pessoas em relação ao ministério ou cantor, quanto do ministro diante da comunidade. O músico precisa entender que, quando canta, aparece, torna-se conhecido. Isso é inevitável. Por isso, num lugar onde ele não conhece ninguém, certamente alguém o terá visto cantar na missa ou esteve naquele evento em que seu ministério tocou. É preciso ser coerente com o que se prega. Isso mesmo. Pois quem canta prega duas vezes. É preciso ser sincero diante de Deus, de si mesmo e da comunidade. Mas há também o testemunho das pessoas, que muitas vezes vêm confirmar a vontade de Deus. O Senhor, normalmente, envia pessoas para profetizar para o ministério. É preciso estar atento.

Por fim, para discernir quando gravar um CD, é importante também ter autocrítica e bom senso. É necessário analisar bem para ver se os frutos do ministério já estão maduros para alimentar o povo de Deus. Ou seja, é preciso observar as letras, as melodias, a qualidade das vozes e dos instrumentistas para saber se já é tempo de partir para um trabalho profissional.

Claro que tudo se resume na vontade de Deus, afinal o ministério não é nosso, é dele. Aliás, sem ele nada podemos fazer. Como diz as Sagradas Escrituras, “se Deus não edifica a casa, em vão trabalham os que a constroem”.

Não quero aqui apresentar regras, mas apenas reflexões para que cada músico, dentro da sua realidade, perceba a vontade de Deus para o seu ministério. O Senhor tem um chamado específico para cada um, que se manifesta de diversas maneiras. Porém, para responder bem a essa vocação, é preciso sinceridade, oração e consciência de que gravar um CD não é o fim último de um ministério, mas sim o começo de uma longa e árdua batalha, para doar a vida por amor a Deus e a serviço do povo.

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